
São Paulo. Dia primeiro. Dez horas da manhã.
A poucos metros da Praça da Sé, uma senhora bastante perturbada golpeia sua cabeça contra o chão, contra as paredes, contra a banca de jornal, ou com as próprias mãos.
Algumas das pessoas que passam olham, entre curiosas e compadecidas. Outras nem olham; têm medo ou já estão acostumadas com as agonias da velha senhora que se repetem todos os dias.
Ao menos uma das pessoas que por ali passam se pergunta - qual será a história desta mulher? Por que está nas ruas, abandonada, lutando contra os demônios que estão dentro de sua cabeça, lutando contra si mesma? Como será que ela chegou até esta situação, e será que isto pode acontecer com qualquer um de nós?
São Paulo. Dia primeiro. Dez horas da manhã.
Um pai anda pelo centro da cidade arrastando o filho pela mão. Na Praça da Sé, a mão do garoto se perde da mão do pai.
Alguns anos depois, se alguém perguntar para este garoto quem ou o que ele é, a resposta virá com hálito de cachaça e será - "cachaça".
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A perturbada senhora que fica na Praça João Mendes está ali mesmo todo dia, batendo na sua cabeça com as mãos, batendo com a cabeça no chão, lutando sozinha contra um mundo opressor. É muito difícil entendê-la, mas fácil de vê-la ali, perto da Livraria Saraiva.
O menino que se perde do pai é personagem fictício da peça COEXISTÊNCIA, que estreou hoje no Espaço dos Satyros 1.
A vida fictícia deste menino ajuda a explicar a vida real daquela senhora. Ajuda a responder o que a violência de uma grande metrópole pode fazer com uma pessoa e, de modo irônico, como esta pessoa sequer existiria se a violência da grande metrópole não existisse.
Para dar esta resposta a peça requer doação do público. Tem só 55 minutos porque é bastante intensa, tanto pelo azeitado "relacionamento" em cena entre Ronaldo Záphas e Henrique Godoy Nunes (também diretores), quanto pela contundente trilha sonora de Valério Fiel da Costa e Tânia Mello Neiva.
Aliás, ver a performance dos dois músicos é espetáculo a parte que faz o programa ficar imperdível. É um olho na dupla de atores e outro nesta dupla responsável pela trilha sonora, que faz som com tudo, desde um violoncelo até alguns copos, e conta ainda com a ajuda de um notebook da Apple para quando só a tecnologia salva.
Se estes quatro não conseguirem passar para você a sensação do que é estar sozinho num mundo impessoal, que simplesmente não se importa, então acho que ninguém mais conseguirá.
Espero que eu tenha conseguido fazer alguém se interessar, e se for o caso corra, pois a singular peça fica em cartaz só até dia 30 deste mês. Sextas e sábados às 21h. Para confirmações e maiores informações, site do Satyros.
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