
Pagando um pau pra Caminho das Índias, nossa viagem ao mundo continua e agora vai parar no país das especiarias. Se tivesse um casal gay na novela das oito eles provavelmente seriam como dois melhores amigos que dividem uma cama de casal e só se encostam uma vez por mês pra um abraço cheio de desconforto. Meio que como o rio Ganges limpinho que aparece lá.
Mas como será que realmente vivem os gays na Índia?

Antes de tudo, na Índia homem pode abraçar homem, beijar homem, andar abraçado, e até dormir na mesma cama sem que isso seja considerado homossexual ou indício de homossexualidade. As relações entre homens naquele país podem ser mais carinhosas.
Na sociedade machista em que vivemos na América Latina, ser homem para muitos significa ser agressivo e ter um certo padrão de comportamento considerado masculino. Na Índia, a superioridade do homem em relação à mulher num relacionamento é tão forte que os homens não têm necessidade de agir de certa forma para serem considerados maculinos.
Assim, ao menos inicialmente, sexo entre homens não é um tabu e não torna o homem menos masculino ou homossexual. É visto por muitos como uma brincadeira perversa ("mischief"), mas apenas uma brincadeira, para se divertir e se satisfazer. O erro maior de um homem casado que fez sexo com outro homem é trair sua esposa, e não tê-la traído com um homem. O mesmo vale para sexo antes do casamento. São tabus mais fortes que o da homossexualidade.
Mas a verdade é que na Índia a homossexualidade é praticada na escuridão. É tabu tanto para as pessoas quanto para o governo.

Assim como já vimos com relação ao homem chinês, o homem indiano também sofre forte pressão para ser marido e pai. Ser solteiro na Índia não faz sentido, é como não existir socialmente. Mesmo homens homossexuais acabam se identificando mais com esse papel social do que com sua própria sexualidade, e vêem o sexo como gay apenas como uma brincadeira prazerosa. É algo sobre o que não se deve falar, e se for para falar, deve-se levar na brincadeiera.
Na verdade não existe uma identidade gay, e a maioria das pessoas simplesmente nega que gays ou lésbicas existam.
Assim, o mais chocante para os indianos não é alguém praticar um ato homossexual, portanto, mas se considerar homossexual. Fugir da obrigação de procriar é a decorrência mais grave disso. Claro que estamos falando de uma sociedade em que superpopulação é algo positivo, o que não faz sentido no mundo ocidental.
Ou seja, o ato homossexual escondido e como brincadeira tudo bem, mas a homossexualidade como identidade de uma pessoa é vista como uma imposição cultural ocidental decadente.

Atos homossexuais podem levar alguém para a cadeia por até dez anos segundo a Seção 377 do Código Penal Indiano, uma legislação dos tempos do colonialismo britânico. O que a lei proíbe é a "relação carnal contra a ordem natural". Na prática há vinte anos não há condenação decorrente de sexo gay com base nesse dispositivo, mas a lei ainda é utilizada como forma de terror (quando pegos pela polícia transando os homossexuais geralmente são extorquidos).
A legalidade do dispositivo está sendo apreciada há algunas anos pela Justiça indiana, e a mudança do ponto de vista do Poder Judiciário com relaçaõ à Seção 377 é o modo mais provável de cair por terra a proibição do sexo gay, já que uma mudança legislativa é vista como pouco provável.
As Nações Unidas já pediram à Índia que descriminalize o sexo gay, pois é fato que em países em que o homossexual é protegido contra a discriminação é mais fácil pretegê-lo de doenças.
É quase desnecessário dizer, mas não existe nenhum tipo de reconhecimento oficial de uniões homoafetivas na Índia.
Apesar de tudo o que foi dito existem na Índia grupos de pessoas que percebem de modo mais claro sua identidade. Isso também decorre da urbanização e da maior força da cultura ocidental, principalmente entre os mais educados. Já há ativismo gay lutando contra leis que criminalizam a homossexualidade.
Além disso hoje já existem pontos de encontro gays em algumas grandes cidades indianas, o que não existia há duas décadas. Nos pontos de encontro gay há abundância de organizações que lutam para conscientização acerca do HIV. Paradas gays também existem nas maiores cidades, reunindo poucos milhares de pessoas. Além disso, os homossexuais têm aparecido mais na mídia e em Bollywood.
Apesar disso, mas muito pouco se avançou no discurso homossexual e na aceitação. O preconceito e a falta de informação genereralizada fazem com que a contaminação de homossexuais pelo HIV atinja índices alarmantes. Muitos indianos não acreditam que sexo entre homens possa transmitir o vírus. Tantos outros acreditam que o sêmen é o produto mais puro do corpo humano, que poderia até dar poderes especiais se ingerido.
A história de uma rapaz chamado Sujit é bem explicativa da situação dos gays na Índia. Desde os dez anos Sujit sabe que é gay, e aos 17 conheceu um parceiro com quem ficou por 13 anos. Mas os dois sabiam que não iria durar pra sempre. Aos 30, o pai de Sujit o ajudou a encontrar uma noiva da mesma casta pela internet (no shaadi.com).
Hoje Sujit é casado e tem dois filhos. Só se relaciona com homens pela internet - exceto duas ou três vezes por ano quando transa com algum outro homem casado. Os riscos de transmissão de doenças são enormes porque, longe dos meios gays, os homens casados não obtêm informação e ajuda sobre este assunto.
Além de tudo o que foi falado, claro que na Índia tudo fica ainda mais complicado (na visão ocidental, pelo menos), já que deve-se considerar castas, classes, religiões e etnias.
Na verdade a religião, ao menos, não parece ser um grande empecilho para os indianos gays. O hinduísmo (maior religião da Índia) não trata da homossexualidade, mas de acordo com algumas interpretações ela seria condenada. Antigos códigos de conduta hindus têm punições brandas para os homossexuais. Um homem que fizesse sexo com outro teria que tomar banho em suas roupas. Só para comparar, o adultério heterossexual poderia levar à pena de morte; pena infinitamente mais severa, portanto.

A Parada Gay de São Paulo acabou de rolar e esteve aqui o príncipe indiano Manvendra Singh Gohil, de 44 anos, homossexual assumido. No dia 31 de maio deste ano já havia saído publicado na Folha de S.Paulo entrevista com ele.
Para ele, foi a colonização britânica quem levou a homofobia à Índia. Saiu do armário para que a mídia começasse a discutir mais a homossexualidade lá. Chegou a ser deserdado pelos pais mas estes voltaram atrás nesta decisão.
O príncipe indiano pode parecer feliz e bem resolvido agora, mas foram precisos um casamento, um divórcio e uma crise nervosa pra ele se situar. "É uma doença? É um problema mental?", ele se perguntava. Ele só veio a entender sua sexualidade aos 30 anos. Para ajudar a causa, o príncipe fundou uma organização sem fins lucrativos voltada a ajudar homens gays e portadores do HIV.
É isso. As fontes estão nos links abaixo e reitero que, como a maioria das informações é proveniente da internet, sempre cabe ter cuidado já que podem não corresponder à realidade. De qualquer forma, se você souber de alguma informação inexata, ou se quiser concordar, discordar, ou de qualquer modo se manifestar, por favor, deixe um comentário!
Num futuro post continua a série sobre homossexualidade no mundo.

Fontes:
Novamente, um show de bola na informação.
ResponderExcluirParabens!
Abraço forte!
Nota dez, super informativo e instrutivo! Gostei!
ResponderExcluirquer dizer que a questão do casamento é social e não juridica? pode-se ser solteiro sem estar desrespeitando a lei?
ResponderExcluirvixi
espero que você passe por países mais amigaveis daki pra frente rs
markus e tom, fico muito feliz que tenham gostado, abraços pra vocês.
ResponderExcluiralessandro, não entendi muito bem o que vc quis dizer... ser solteiro não é um desrespeito à lei, mas é um contra-senso social. O que no Brasil também faz sentido, só que lá pelo jeito numa escala muito maior... abraço!
Muito interessante! A cultura de cada lugar influi e muito sobre os conceitos da sexualidade.
ResponderExcluirParabéns pela pesquisa!
Abração!
R.
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