
Falar de LIZ é um negócio complicado. A montagem é tão particular que já gerou até discussão nas páginas da Folha de S. Paulo.

Começo dizendo que a peça conta parte da história da Rainha Elizabeth I, filha de Henrique VIII e Ana Bolena. Elizabeth ascendeu ao trono depois de muito arranca-rabo na Inglaterra, e acabou se tornando uma rainha bastante célebre até hoje por ter sido "casada com o povo" e por ter "morrido virgem". Virou rainha com 25 anos e governou por 44 anos, até sua morte. Como não deixou filhos, foi a última monarca da dinastia Tudor.

A história de Elizabeth I é muito interessante, é tema de diversos filmes e, claro, tem potencial para ser um ótimo enredo para uma peça. A questão com LIZ é que a sua montagem é tão psicodélica, e trata de "fatos históricos" (não confirmados) tão específicos, que fica difícil enterdemos onde estamos.

Na Folha, o crítico teatral Luiz Fernando Ramos falou do seu entendimento da peça. Disse que o período elisabetano é trabalhado por ela como uma analogia à situação atual de Cuba. Assim, falar da rainha Elizabeth seria mais uma desculpa para falar de Fidel.

Para o crítico, LIZ "é um curioso espécime de teatro latino-americano. Trabalha personagens da história europeia, sincronizados tempo-espacialmente em estrutura dramática, para falar de questões cubanas por meio de uma irreverente companhia brasileira".

Como já disse, a resposta veio também na Folha, dada por Alberto Guzik, ator e dramaturgo que faz parte da montagem de LIZ. Este disse que, apesar de ser possível a leitura que vê uma crítica ao regime castrista, esta não é a intenção da montagem.

Para Guzik, a montagem quer falar na verdade que o grande artista do período foi Christopher Marlowe, e não William Shakespeare. Só que Marlowe (de acordo com a peça) foi assassinado ainda jovem para que fosse salva a vida de Walter Raleigh, por quem a rainha era apaixonada.

A peça trataria, então, sobre o exerício do poder. Não sobre Fidel, particularmente, mas sobre qualquer um que exerça o poder. Elizabeth I teria mandado matar Christopher Marlowe apenas como um capricho, para demonstrar a força de seu poder (como rainha e como mulher) sobre seu amado Walter Raleigh.

Eu sou obrigado a concordar tanto com a crítica quanto com a réplica.

Primeiro, o enredo é complexo, o que se depreende do fato de que a peça teve que ser "explicada" para um crítico teatral por um dos integrantes do grupo na Folha. Como se o texto árduo não bastasse, ele é falado num mundo psicodélico com influências cubanas e brasileiras. A digestão de tudo isso é sim bastante complexa.
Por outro lado, eu não entendo a peça como uma metáfora de Cuba. A peça mostra uma Elizabeth que governa de maneira mesquinha, olhando para o próprio umbigo. Ora, isso pode ser uma crítica tanto a Fidel quanto a Sarney, o político brasileiro do momento.
No fim das contas, acho que a peça vale a pena. Foi uma montagem bem diferente e que me fez correr atrás de várias referências para entendê-la. Ser complicada pode ser visto como um problema, mas eu vou levar como sendo mérito.

No Satyros 1, sextas e sábados às 21 horas, a R$30,00 a inteira. Até 29 de agosto.
O problema da psicodelia é quando o espectador deixa de entender a peça. Já passei por algo assim e é frustrante!
ResponderExcluirGrande abraço!
R.
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