
*Conto baseado em fatos surreais.
Era um garoto que não via cores. Tudo para ele era preto ou branco. Preto no branco. O mundo era simples para o garoto. As coisas eram pretas ou brancas, certas ou erradas. As pessoas eram boas ou más, felizes ou tristes. Garotos gostavam de garotas e as garotas gostavam de garotos.
O garoto não entendia, não se entendia muito bem neste mundo. Mas o mundo era preto no branco, não havia muito o que pensar, questionar, desejar, encontrar.
Mas o garoto às vezes percebia aqui ou ali, e dentro de si, algo que não encaixava, que não era preto ou branco, certo ou errado. Era algo como um tom de cinza, que não era absolutamente perfeito ou absolutamente imperfeito, mas algo absolutamente novo, diferente, único.
O garoto, claro, não gostava nada do cinza, pois também não o entendia muito bem. Como algo pode não ser preto nem branco? Onde se encaixaria o cinza, que rótulo poderia colocar nele se ele só conhecia o preto e o branco?
O garoto que não via cores demorou muito tempo para entender o cinza. Mas mesmo depois de entender não quis o experimentar nada cinza. Continuou querendo ser preto no branco porque assim não poderia errar. Quando via algo ou alguém cinza na rua o garoto olhava para baixo e continuava andando sem olhar para os lados, para trás, para o mundo.
Muito, muito mais tempo passou. O garoto que não via cores era feliz, mas passou a desejar o cinza. O garoto que não via cores percebeu que não valia a pena esperar uma outra vida para finalmente poder apreciar o cinza. Percebeu que loucura não era experimentar o cinza, mas sim esperar por outra vida onde ele não existisse, ou onde pudesse experimentá-lo.
O cinza era uma parte de si, assim como o branco e o preto. Ele era preto, era branco, mas também era cinza.
O garoto que não via cores decidiu provar o cinza. E o cinza lhe caiu bem. O garoto percebeu que o cinza era uma parte muito importante da sua personalidade. Percebeu que era muito mais sendo também cinza do que sendo só preto e branco. Não ser preto no branco não era perfeito, mas era muito melhor do que ser, e o garoto se sentia mais vivo do que nunca. Sabia mais (e consequentemente menos) sobre si mesmo depois de aceitar o cinza que havia dentro dele.
O garoto começou a conhecer outras pessoas cinza. Percebeu que assim como ele essas pessoas eram altas, baixas, gordas, magras, brancas, negras, tristes, felizes, certas, erradas, bonitas, feias... Cinza claro, cinza escuro, cinza urano, cinza chumbo... Assim como o menino que não via cores, nenhuma daquelas pessoas era perfeita, mas todas tinham algo de diferente e de único. Cada uma tinha seu tom de cinza.
Um dia o garoto que não via cores conheceu um garoto com um lindo tom de cinza. O garoto ficou feliz por conhecer este garoto, e com o passar do tempo o garoto que não via cores conheceu mais e mais o garoto que havia conhecido.
O garoto que o garoto que não via cores conhecera mostrou com o tempo que não era só cinza, mas que tinha também outras cores.
Seus grandes olhos não eram cinza mas sim marrons, e tentavam expressar um milhão de coisas ao mesmo tempo. Seu cabelo não era cinza mas sim castanho, e tinha um cheiro que o garoto que não via cores jamais havia sentido.
Sua pele não era branca mais sim dourada, como se tivesse sido levemente queimada pelo sol. Seu sorriso aberto, mostrando os dentes brancos, era um arco-íris no qual o pote de outro estava logo ali, e não do outro lado.
O garoto que não via cores ficou impressionado com o garoto colorido que conhecera. Mas não sabia como ser um garoto que via cores, por mais que aquelas cores do garoto colorido o deixassem feliz. Logo ficou assustado e decidiu fugir.
Antes que o garoto que passara a ver cores fosse embora, o garoto colorido lhe deu um livro, pedindo-lhe que só o lesse quando chegasse no lugar aonde estava indo. Seus olhos castanhos brilhavam mas seu sorriso não era colorido.
Quando chegou ao seu destino, o garoto que não queria ver cores abriu o livro e começou a ler. O livro aparentemente era como qualquer outro, com suas páginas brancas recheadas de letras pretas.
Mas este livro era diferente.
No significado das letras, das palavras, das frases, havia cores que o garoto que até há pouco não via cores não sabia que existiam. Nas glosas escritas pelas páginas do livro sem maiores pretensões havia tantas outras cores, vibrantes, intensas, avassaladoras.
O garoto que via cores percebeu que não tinha outra escolha. Começou a trilhar seu caminho de volta para o garoto colorido, torcendo para que quando finalmente o reencontrasse este continuasse vendo em si as cores que ele não sabia que tinha.

muitoooo bommmm
ResponderExcluiramei!
abracaoooo
vlw amb!!!!!!!!!!
ResponderExcluirabraco!
Linda reflexão, temos que aceitar a diversidade das cores.
ResponderExcluirverdade marcos. mas às vezes é um processo não. não vem fácil aceitar a si mesmo e aos outros. abraço.
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